Alguns estudiosos afirmam que a
língua portuguesa é machista e apresentam pelo menos duas razões para isso: se
numa sala há uma multidão de mulheres e apenas um homem, a concordância se fará
no masculino plural; se uma pessoa quer agredir um homem, é a mãe dele que ela
xinga; além disso, há nomes que são elogios para o homem e agressões à mulher:
a um homem se pode chamar touro ou garanhão, mas chamar a mulher de vaca ou de égua é ofendê-la. À primeira vista esses argumentos
parecem ter fundamento. Ledo engano.
A língua se caracteriza pelos
instrumentos gramaticais, como flexões nominais e verbais, artigos, preposições
e conjunções, por exemplo. O vocabulário, isto é, as palavras reais, não
caracterizam a língua. Ê por isso que o inglês é considerado língua germânica e
não latina, apesar de ter uma quantidade significativa de palavras latinas no
seu léxico. Da mesma forma, o romeno é considerado língua latina, apesar da
grande quantidade de palavras eslavas em seu dicionário. É basicamente o
vocabulário o que distingue o português do Brasil do português de Portugal, ou
o português brasileiro do morro do português brasileiro do asfalto. Ninguém
deixaria de reconhecer como legitimamente portuguesa uma frase como “O
office-boy, com uma pizza de mozarela, flertou com as garçonetes no hall do
drive-in’, em que não existe uma única palavra portuguesa (Office-boy, hall e
drive-in são palavras inglesas, como a raiz de “flertou”; pizza e mozarela são nomes italianos; garçonete é nome
francês. O que caracteriza a frase como portuguesa são os instrumentos
gramaticais: os artigos, as preposições, a flexão verbal, o número, o gênero.)
Um falante pode
inventar um substantivo novo ou um verbo novo, mas não poderá inventar um
gênero diferente nem uma conjugação diferente, porque é a gramática que faz a
língua e não o dicionário. Para inventar palavras, não é necessário utilizar os
recursos de formação vocabular que a língua põe à disposição dos falantes, como
sufixos e prefixos. Basta respeitar os padrões fonológicos da língua. Ao
inventar o “imexível”, Magri utilizou recursos
existentes na língua, e o resultado foi
perfeitamente compreensível, aceitável e de acordo com outras formações
lexicais já existentes, como “ilegível”, por exemplo.
Mas, ao inventar “hiputrélico”, em Tutaméia, Guimarães Rosa só respeitou os padrões silábicos e fonológicos
da língua, o que deu uma configuração portuguesa à palavra, mas nenhum sentido,
uma vez que nenhum falante poderá saber o que essa palavra significa, a menos
que o próprio autor o diga.
Assim, quando utiliza um termo
agressivo para a mulher mas elogiativo para o homem, o falante é que está sendo
machista, e não a língua, porque a escolha das palavras é exclusivamente
responsabilidade sua. Mas, quando usa o feminino, o plural, ou conjuga um
verbo, a responsabilidade é da língua, porque é a língua e não o falante que
determina o gênero ou a flexão verbal. Assim “Deus” é masculino não porque a
língua é machista, mas porque “Deus” não tem o “a” do feminino. O feminino é
que tem a marca de gênero, em português. O masculino é, na verdade, a ausência
de gênero. Por isso, pronomes como ‘quem”, “aquilo”, “isto”, “nada”, “tudo”,
“alguém”, “ninguém”, etc. exigem concordância no masculino, que não é gênero.
Aliás, o masculino deveria chamar-se “neutro” ou “gênero não marcado” por
oposição ao feminino, que é gênero marcado. Da mesma forma, eu sei que “prato”
é singular, porque não tem o “s” de plural. Apenas o plural é número marcado em
português. O singular, como o masculino, não tem marca.
Assim, se há muitas mulheres e
apenas um homem num lugar, a concordância no masculino apenas assinala que não
se está especificando gênero nenhum, que não se está privilegiando ninguém.
Com relação a nomes que são
elogios para o homem e ofensas para a mulher, como pistoleiro/pistoleira, homem
público/mulher pública, touro/vaca, aventureiro/aventureira, cão (melhor amigo
do homem)/cadela (prostituta), etc., não
há neles nada que permita concluir que a língua seja machista, porque se trata de vocábulos, de itens lexicais, de palavras de livre
escolha do falante, sem imposição da língua.
Se o falante tem o direito de inventar uma palavra (falso lexema), como fez Guimarães Rosa com o seu “hiputrélico”,
ele não tem o direito de inventar um gênero novo, um
plural diferente ou uma flexão verbal própria.
Os instrumentos gramaticais são impostos ao falante, mas o vocabulário,
não. Assim, não é a língua que é machista, mas o
falante, quando usa nomes elogiativos para o homem
e ofensivos para a mulher.
*José Augusto Carvalho, mestre em
Linguística pela Unicamp e Doutor em Letras pela USP, é autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português
e de uma Gramática Superior da Língua
Portuguesa, ambos em segunda edição pela Thesaurus.



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